Seria uma aventura e tanto explicar, aqui nesse espaço, o que é o narcisismo. Trata-se de um conceito extremamente complexo, atrativo para os psicanalistas, que vêm estudando o termo desde Freud. Mas posso dizer, de forma bem humilde e simplificada, que o narcisismo é um estado em que as pulsões, as energias sexuais, estão voltadas para o próprio indivíduo. É um primeiro movimento de organização das pulsões, dentro do desenvolvimento emocional. Ele acontece após o nascimento, depois de uma fase auto-erótica, digamos, e antes de outra em que as relações com outras pessoas podem ser reconhecidas. Um certo narcisismo é fundamental para nossa vida. É uma espécie de amor-próprio, um amor por nós mesmos. Aqui, a concentração de libido (energia sexual, energia de vida) está dentro do eu. A auto-estima depende, indiretamente, da libido narcisista. O mecanismo do pensamento é mágico, um estado emocional em que se pode SER e TER TUDO. Há uma idéia de perfeição, de completude, de SER TUDO, que se desdobra para o anseio de ser objeto do amor de um outro, sem restrições, de forma incondicional.
Com o desenvolvimento, espera-se que se abandone esse estágio, embora não de forma absoluta, dando lugar a um substituto do narcisismo perdido, que é o ideal do ego. O que acontece, então, é que passamos a vida tentando buscar um equilíbrio entre investimento narcísico (voltado para o eu) e objetal (aqui entendido como algo voltado para o objeto, que são as outras pessoas). Ora estamos mais voltados para nós mesmos, mais fechados em nosso eu (quando estamos doentes, nos lutos, nas situações traumáticas), ora estamos mais “para fora”, ativos nas relações com as pessoas e com o que existe no externo.
Para que o narcisismo seja considerado um estado patológico, é preciso que haja certas condições que não pretendo tratar nesse artigo. Estou falando tudo isso para construir uma base sobre a qual quero assentar algo que percebi esses dias.
Fui ao supermercado, levando uma lista com os itens que deveria providenciar para a minha casa. Ao chegar em casa, foi constatado que cometi um erro ao comprar os xampus, pois eu deveria ter trazido o XYZ CAMADAS DESTACADAS e, em vez disso eu trouxe o XYZ ONDAS MARCANTES. Eu já havia percebido a ameaça de confusão, diante da prateleira farta com esses produtos, pois a cor dos recipientes era muito semelhante e havia ainda mais um tipo próximo dessa especificidade, que era o XYZ ONDAS DEFINIDAS. Eu havia tentado, ao máximo, me lembrar das associações que eu tinha construído para me lembrar do tal xampu, visto que na lista só me limitei, por preguiça, a escrever “xampu”. Mas na hora não me lembrava se deveria me ater às ondas ou às camadas, ou se deveriam ou não ser marcantes!
Até um tempo atrás, aliás, as listas de supermercados eram coisa simples: xampu, sabão, absorvente higiênico e assim por diante. Agora elas requerem um nível incrível de detalhes para atender às necessidades do consumidor. O absorvente higiênico, por exemplo, era um só e tanto é verdade que nos acostumamos a chamá-lo pela marca, que virou o produto em si. Não nos referíamos aos absorventes higiênicos, falávamos MODESS simplesmente. Olhem que simples!
Mas, a coisa hoje em dia fica assim: xampu XYZ CAMADAS DESTACADAS para a filha mais nova, CHOCOLATE PARA CABELHOS BRILHANTES, SEM SAL para a filha mais velha, PARA CABELOS SECOS para o pai, PARA CABELOS SECOS QUE AO LONGO DO DIA FICAM OLEOSOS para a mãe... e, de quebra, xampu PARA CÃES, DE PELAGEM CURTA, como já está dizendo o item, para a cachorrinha. Não vou fazer o mesmo com os condicionadores porque não quero que o leitor me abandone.
Se dermos espaço para a empregada doméstica, o inofensivo item SABÃO virá descrito da seguinte maneira: Detergente líquido XYZ para a cozinha, detergente XXX para o banheiro, detergente YYY para o quintal, detergente DESENGORDURANTE para panelas e lugares engordurados, detergente ZZZ para o quintal e detergente WWW para a calçada da frente da casa. Ufa! Isso porque não falei nos achocolatados, pães, leites, produtos hortifrutigranjeiros, light, diet, integral, natural e assim vai.
O que acontece aqui, para mim, é uma armadilha narcísica. Vou explicar.
O que está por trás desse nível obsessivo de detalhismo é a seguinte mensagem: “Você vai encontrar aquele produto exato que atenderá aos seus desejos e necessidades. Peça e será atendido”. É algo do tipo gênio da lâmpada. Ele aparece e seduz a pessoa oferecendo-lhe a ilusão de que ela será identificada, com suas necessidades, em meio à infinita multidão de pessoas.
Essa multidão que nos põe diante da constatação de que somos apenas mais um no universo, nem mais nem menos importantes que qualquer outro ser humano, desaparece para dar lugar à sensação de exclusividade. E é aí que mora o narcisismo, condição que deixamos, em parte, mas sempre que podemos tentamos resgatar. O ideal do ego, como disse anteriormente, encontra aqui a oportunidade de se realizar, de ser satisfeito.
Bom, o “ataque narcísico”, dito de forma bem grosseira, pode acometer tanto aos desejantes quanto àquele que irá realizar os desejos. Quero dizer o seguinte: as pessoas na minha casa podem pedir e desejar o que quiserem, e eu posso – ou não – atendê-las. Isso tudo vai depender de a quantas anda o meu narcisismo. Se ele estiver “em baixa”, não me impressionarei tanto com a diversidade de itens, e até convidarei os integrantes da família para uma visita própria ao supermercado, e cada um que se vire; mas, se meu narcisismo estiver “em alta”, essa lista de desejos será o prato cheio para que eu me agarre à oportunidade de ocupar o lugar de gênio da lâmpada, aquele que realizará, afinal, os desejos e estarei, assim, firmando um compromisso com o meu narcisismo e com o narcisismo das pessoas.
A indústria do consumo conhece muito bem nossas fraquezas e não poupará esforços para criar infinitos produtos que se transformarão em infinitas armadilhas para atrair o nosso narcisismo.
Qual é o problema de comprar os tais produtos? Eles estão na prateleira, basta pegá-los e adquiri-los... que mal há nisso? O mal, que vai se disseminando inocente e silenciosamente, está em que, ao cairmos nessas armadilhas, estamos desistindo dos esforços que se encaminham na direção das renúncias necessárias para uma vida mais simples, mais autêntica e menos materializada. É um caminho perigoso no sentido de nos desviar de nossas essências, de aniquilar com os sentidos mais importantes que envolvem o viver. Ficamos desviados do esforço de pensarmos menos nas coisas comezinhas e mais nas boas relações com as pessoas e nas trocas que podemos fazer com elas.
Será que se eu dispensar menos tempo para a marca exata do meu xampu e ficar menos preocupada em ser maravilhosa e perfeita não sobrará mais espaço para coisas que me trarão as forças verdadeiras das quais preciso para conhecer e compreender a vida com a complexidade que ela tem?
Élide Camargo Signorelli é psicóloga com formação psicanalítica pelo S.P.CAMP, Sociedade Psicanalítica de Campinas, e especialização em adolescência pelo Departamento de Psiquiatria da FCM da Unicamp.