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Bragança Paulista - SP

ARTIGOS - PSICOLOGIA

Flagrante da vida cotidiana no século XXI
Por Élide Camargo Signorelli    
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Eu estava num salão de beleza, no balcão da recepcionista, esperando para marcar horário. Uma cliente do lugar, que estava indo embora, passou pela recepção para pagar sua conta e, conversando com a atendente, disse-lhe algo que me escapou aos ouvidos, de tal forma que a moça disse: “Minha mãe está hospitalizada” e desatou a chorar. A cliente aproximou-se dela e deu-lhe um abraço forte, ao qual a moça correspondeu, chorosa. Foi um abraço caloroso, de quem desejava acolher aquela situação. Em seguida, conversaram um pouco sobre os detalhes do estado de saúde da velha senhora e a cliente disse que tinha um remedinho ─ citando seu nome ─ que lhe faria muito bem. Abriu sua bolsa, pegou uma dessas carteiras porta-comprimidos, tirou o tal medicamento e deu-o para a moça, dizendo, ainda, que o remedinho era natural. Feito isso, ela foi embora.

Tão rápida quanto a atitude da cliente-amiga em oferecer, ostensivamente, o remédio foi a reação da moça, que se levantou, foi até o bebedouro, encheu um copo com água e tomou o comprimido. Confesso que para mim, pelo menos, tudo aquilo foi rápido demais. Entre o abraço, a oferta do comprimido e a sua ingestão não demorou dez minutos.

Sem conseguir me controlar, eu ainda perguntei à moça: “Você está se sentindo muito tensa?”, e ela respondeu: “Não, eu estou com uma tristeza”. Pois é, ela estava triste. Certamente não era uma tristeza qualquer e sim um profundo sentimento de dor, talvez misturado com sensações diversas, medos, confusões. Mas, como ela disse, era tristeza o que ela sentia. Será que aquele remedinho era tão inocente assim? A cliente disse que era natural. Melhor assim, mas será que natural mesmo não é vivenciar o sentimento, senti-lo? A palavra já está dizendo, sen-ti-men-to.

A indústria farmacológica vem trabalhando, agressivamente, para oferecer as pílulas mágicas que desaparecem com todos os problemas. Poderosíssimas, elas somem com a gordura, fome, ansiedade e todo tipo de dor, física e mental. São pílulas para aumentar o prazer, para interromper menstruação e tantas outras. Oferta perigosa essa. Mas, se livram o sujeito de qualquer dor, então não seriam desejáveis? Quem é que gosta de sofrer? O problema não está no remédio em si, mas no uso que é feito dele. Aliás, isso é válido para tudo. As coisas são o que são, mas é a interpretação que as pessoas fazem das coisas que as torna naturais ou problemáticas.

Corremos o risco de pensarmos que podemos evitar tudo e que basta ingerirmos a pílula e o mal estará debelado. O que parece inofensivo pode passar a ocupar um lugar significativo no arsenal de recursos que a pessoa tem para lidar com as dificuldades que encontra pela vida. Se não houver uma consciência, uma atenção sobre o controle disso, a dependência aos remédios poderá crescer, silenciosa e gradativamente.

Esses dias atendi a uma mulher que toma doze comprimidos de remédios diferentes diariamente. Há anos ela é um ser tomado por uma “nuvem de entorpecimento”, como se estivesse sempre em meio a uma neblina densa. As coisas não são mais claras e sim sempre opacificadas pelas drogas todas que ela ingere. Além da dependência, o que vai acontecendo é uma perda da capacidade de ser dona do que lhe acontece. A condição de ser sujeito de sua história, aquele que se responsabiliza pelo que lhe cabe, que pode pensar seus pensamentos, vai desaparecendo e escapando das mãos.

E vamos ficando com medo de sentir. Ao menor sinal de sentimento, já nos entorpecemos de pílulas, e sem os sentimentos nos transformamos em quê? Não são esses sentimentos e os pensamentos atributos que nos tornam humanos?

Voltando à cena inicial, só o abraço entre as duas pessoas, a atenção e as palavras ditas já poderiam confortar a moça triste e ajudá-la a ter coragem para passar por tudo que a preocupava. Muitas vezes pensamos que temos de fazer muito, falar muito ou então arrancar da pessoa a sua dor e, dessa forma, nossa tarefa fica difícil, onipotente demais. Se conseguirmos tolerar o que está presente, surgirão disso a força e a coragem para o enfrentamento, que por sua vez será referência para outras tantas situações da vida.

E assim garantimos nossa humanidade. Ah, sofrendo? Não, sentindo e pensando.

Élide Camargo Signorelli é psicóloga com formação psicanalítica pelo S.P.CAMP, Sociedade Psicanalítica de Campinas, e especialização em adolescência pelo Departamento de Psiquiatria da FCM da Unicamp.

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