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Bragança Paulista - SP

ARTIGOS - PSICOLOGIA

Simplesmente... NÃO!
Por Lunalva A. Fiuza Chagas   
Integral.br

“(...) Não, você não vai passar a madrugada na rua. Não, você não vai dirigir sem carteira de habilitação. Não, você não vai beber uma cervejinha enquanto não fizer 18 anos. Não, essas pessoas não são companhias pra você. Não, aqui não é lugar para você ficar. Não, você não vai faltar na escola sem estar doente. Não, essa conversa não é pra você se meter. Não você não vai ficar com o celular que achou, vai ligar e devolver ao dono. Não, você não vai ficar com nada que não te pertença.

(...) E quem ouve uns nãos de vez em quando também aprende a dizê-los quando é preciso.

(Arnaldo Jabor)

O texto acima do Jabor traz um olhar conciso e ao mesmo tempo tão pertinente sobre a tragédia comentada no artigo publicado nesta seção na semana passada, que nos relembra da importância desta palavra composta de apenas três letras: NÃO.

Se pais e educadores não assumem a responsabilidade por formar o caráter de seus filhos e alunos, a sociedade sofrerá o reflexo deste hiato no desenvolvimento. A passagem para o mundo dos adultos se caracteriza por um nível de exigência cada vez mais sofisticado e, invariavelmente, produz sensações de se estar pressionado a cumprir as projeções de todos os grupos com os quais mantém estreita relação, sem saber ao certo como corresponder e quanto. Neste momento o jovem flutua entre dependência e independência extremas. É um período de contradições, sentido como confusão e impotência. Nada está certo, nada está no lugar devido, sempre falta, sempre poderia ser diferente, melhor.

Adaptação, formação da persona, das máscaras sociais. Neste processo o adolescente se apresenta como se fosse vários personagens, inclusive diante dos pais, que acabam por perder o foco. Quando se preparam para o choro vem o riso e vice-versa.

Quando os pais assumem seus papéis, ordenam, limitam e formam um centro de valores que oferece segurança, ainda que a reação do filho seja através do choro, gritos e do bater de portas, ainda que se rebelem, retornam ao terreno seguro, pois reconhecem o caminho desenhado pelas figuras importantes no seu desenvolvimento. Isso gera segurança, porque se apóia na idéia de que existe aquela mão internalizada a puxá-los para o centro. Muitas vezes esta mão fica projetada no melhor amigo, outras em suas próprias, quando diante de um irmão ou amigo que se afastou do caminho. Por todo este processo, é fundamental que a família se apóie em valores claros e plenos de significado e não em regras vazias e imperativas. A pausa à mesa após um lanche ou uma refeição, as trocas entre pais e filhos, poderem assistir juntos às questões propagadas na mídia e analisarem prós e contras, cinema em casa, aprofundamento nas artes, filosofia e religião são maneiras prazerosas da formação desse núcleo estruturante da personalidade e do sentido de família.

O processo de adaptação ao mundo pede um ego de paredes flexíveis, mas construídas com material sólido e resistente às intempéries, às flutuações de humor, mas principalmente às invasões do material vindo do inconsciente. O ego lida o tempo todo com adaptação às regras sociais, equilibrando as solicitações externas e relacionando-as com os conteúdos que emergem do inconsciente. Com as informações que recebe do mundo externo, formula juízos de valor e toma decisões se deve ou não agir de acordo com o que é exigido na adaptação ao mundo exterior ou se deve atender às necessidades subjetivas da psique, sua essência, suas demandas internas. É um eterno relacionar-se, “pôr-se de acordo com”, processo de equilíbrio diário entre fatores internos e externos, que exige muito da energia psíquica.

São as falhas neste processo de adaptação que definem o que chamamos de neurose. Na análise, trabalhamos inicialmente com os sintomas, problemas aparentemente externos, a queixa principal como denominamos. O primeiro movimento é no sentido de liberar a pessoa deste olhar focado no sintoma para relacioná-lo com questões interiores profundas e que exercem pressão sobre a psique. É nesse ponto que percebemos se a “construção do ego” é suficientemente forte e flexível para suportar as forças inconscientes e se vamos privilegiar os processos do inconsciente que exigem ser integrados à consciência ou se vamos reforçar o ego. A consciência não deve e não pode ser dispensada, deve sim ser aprofundada e ampliada.

Ser um adulto amadurecido significa reconhecer as diferentes partes da psique como tais e saber relacioná-las entre si de maneira justa. É na família, porém, que construímos as bases deste processo. Aprender a dizer não àquilo que é nocivo, que é negativo à estruturação da personalidade faz com que o jovem conscientemente diga não a toda forma de abuso, seja ele sexual, de poder, às drogas, às investidas na internet, às contravenções legais.

Fechando com Arnaldo Jabor: “(...) O não protege, ensina e prepara.”

 

Lunalva A. Fiuza Chagas é psicóloga, membro analista da Associação Junguiana do Brasil (AJB), pelo Instituto de Psicologia Analítica de Campinas (IPAC) e da International Association for Analytical Psychology (IAAP)-Suíça.

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